Acordo Mercosul e União Europeia: o que já é possível prever?
O Brasil fez a lição de casa: deu suas bençãos ao acordo Mercosul – União Europeia, promulgado pelo Congresso em 17 de março. A bola, agora, segue com a Justiça e o Parlamento Europeus. Vai demorar, mas tudo indica que será aprovado o tratado que prevê, entre outras coisas, a redução gradativa da tarifa de importação de vinhos europeus, hoje em 27%.
Há quem preveja uma espera de pelo menos dez anos para que a redução seja finalmente efetivada. “Mesmo que passe pelo Parlamento Europeu, há um período de negociações a ser considerado e só depois começa a contar o tempo do acordo”, calcula Karene Vilela, presidente da Câmara Portuguesa de São Paulo e diretora Comercial e de Marketing da Bacalhôa, uma das mais importantes vinícolas portuguesas e grande exportadora para o Brasil.
Segundo ela, não é fácil desenhar um cenário com tanta antecedência, afinal, além da espera até o acordo vigorar, a redução total das tarifas levará oito anos para vinhos tranquilos e 12 anos para espumantes.

Karene Vilela @kvilela possui mais de 15 anos de experiência na importação e distribuição de vinhos. Atualmente, é Commercial Director do Grupo Bacalhôa para as Américas e Reino Unido, Marketing Director Global e a primeira mulher a presidir a Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo.
Mesmo assim, Karene admite que “levando em consideração que apenas 33% do vinho consumido no Brasil é importado, o acordo deve aumentar a venda de vinhos europeus por aqui”, diz. Ela também acha que Portugal pode melhorar seu posicionamento, principalmente ao levar em conta as ações que os produtores portugueses vêm realizando. “Há um trabalho muito forte da ViniPortugal no Brasil. Regiões como Alentejo, Vinho Verde e Vinhos de Lisboa já são referência”, exemplifica. “Pode ser que ganhemos da Argentina ou rivalizemos com o Chile”, imagina ela, comentando os dados de importação de vinhos divulgados pela consultoria IDEAL B.I. Karene lembra que, segundo o levantamento, o Chile lidera a lista, com 39% dos rótulos importados pelo Brasil, seguido da Argentina, com 18%, e de Portugal, com 15%.
A diretora da Bacalhôa cita, ainda, uma fatia que pode se beneficiar das novas taxas, a dos vinhos Premium. “A longo prazo, o posicionamento das marcas premium poderá ter mais facilidade”, arrisca. “Muitos brasileiros compram esses vinhos quando vão a Portugal porque consideram inviável o preço aqui no Brasil”, explica.
Os representantes dos produtores espanhóis da tradicional DOca Rioja, na Espanha, também são cautelosos e preferem não dar palpites: “estamos analisando com precisão e profundidade como tudo isto poderá afetar e ter consequências de longo alcance”, avisou a assessora da D.O.. Pareceres sobre o assunto, só após a análise.
Enquanto os produtores do lado de lá do Atlântico seguem cautelosos, dando tempo ao tempo, os sul-americanos têm mais urgência em analisar a situação e mitigar possíveis danos. Executivos chilenos do setor já declararam à imprensa a importância de seguir investindo na imagem de suas marcas no País. Enquanto o acordo não entra em vigência, os chilenos prometem reforçar a marca Chile e a comunicação com os consumidores brasileiros. Uma aposta na confiança e na fidelidade frente à tentação de preços mais baixos.
No Brasil, o acordo já acendeu o alerta nas associações de produtores. A Associação Nacional dos Produtores de Vinhos de Inverno (Anprovin) junto com outras entidades que representam centenas de vinícolas e produtores de estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Distrito Federal e Bahia, e o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) já divulgaram comunicados expressando a preocupação com possíveis perdas do setor. Também definiram demandas que consideram importantes para o equilíbrio de forças no embate com os europeus.
“Considerando o potencial impacto concorrencial ao mercado interno e a existência de políticas de subsídios aos produtores europeus, o setor pleiteia instrumentos que garantam condições equilibradas de competição e fortalecimento da indústria nacional”, reivindica o documento divulgado pelo Consevitis-RS.
O mesmo princípio baseia as solicitações da Anprovin, que frisa a ausência de isonomia nas condições de concorrência entre os produtores de cada lado do oceano. “Enquanto os vinhos europeus chegam ao mercado brasileiro respaldados por subsídios históricos e políticas públicas consolidadas, o produtor nacional enfrenta elevada carga tributária e um enquadramento regulatório que ainda não reconhece o vinho como um produto agroindustrial estratégico”, constata a carta.
Como resposta, o Governo Federal já garantiu por meio de decreto a possibilidade de aplicar medidas que evitem prejuízos para os produtores brasileiros. “Essa questão ainda está sendo avaliada por nós, o setor busca conversar com o Governo Federal para entender melhor as salvaguardas”, avisa a Anprovin. Sinal de que ainda teremos muito jogo pela frente.
Por: Luísa de Oliveira
Jornalista e sommelière em formação -FPS 1 e FPS 2 - Sommelier School @luisacurtevinhos

